Cenário para inflação é positivo e inusitado

O que está acontecendo com o processo inflacionário no Brasil é certamente positivo e inusitado, ao mesmo tempo. Positivo porque a redução da carestia beneficia trabalhadores e assalariados que recuperam poder de compra. Depois de dois anos de meio de recessão e de ter enfrentado um IPCA de dois dígitos, a economia brasileira caminha para conviver com uma inflação mais civilizada, em torno dos 3% ao ano.

Segundo relatório Focus, produzido pelo BC, os analistas do mercado financeiro esperam que o IPCA feche 2017 em 3,14%, menor do que os 3,38% da semana anterior e dos 3,50% de duas semanas atrás. A previsão derrete diante do comportamento dos preços na economia, numa velocidade que ninguém está conseguindo adiantar. O patamar esperado agora pelos economistas reacende um risco inédito no Brasil, a parte inusitada da queda da inflação.

O arcabouço que rege a política monetária no país, o sistema de metas para inflação, prevê que, se o IPCA ficar fora dos limites de tolerância da regra, o BC estará descumprindo com seu objetivo e terá que se explicar à sociedade sobre como isso foi acontecer. Hoje, a meta é de 4,5%, com uma banda de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, ou seja, o IPCA só pode variar entre 6% e 3%. Com a previsão mais recente feita pelos analistas para o índice oficial, aumentou muito o risco de o BC ter que se explicar por um fato inédito: a inflação furar o piso, e não o teto da meta, como já aconteceu.

Vigente desde 1999, o sistema de metas para inflação tem balizado as decisões do Banco Central sobre a taxa de juros, sendo um dos pilares mais importantes da economia, desde a criação do Plano Real. A meta de IPCA a ser cumprida, estabelecida pelo governo dois anos antes, faz o BC calibrar os juros para controlar a demanda por consumo e, ao mesmo tempo, conter o processo inflacionário. Nestes 18 anos, foram quatro as vezes (2001/02/03/15) em que o presidente do BC precisou escrever uma carta pública ao ‘chefe’, ministro da Fazenda, para se explicar, reafirmar compromisso com o sistema e indicar o que está fazendo para evitar que isso aconteça novamente.

Em 2011, 2014 e 2016, o IPCA esbarrou nos 6,5% – topo do limite de tolerância à época –  e, com exceção do ano passado, o limite não foi ultrapassado mais por sorte do que por competência do comando do BC. A estratégia de Alexandre Tombini, presidente do BC no governo Dilma, chegou a ser irresponsável quando a trajetória do IPCA era claramente ascendente e, mesmo assim, o Copom cedeu às pressões políticas para reduzir os juros (2011/12), ou estancar a alta da taxa para não atrapalhar a eleição em 2014. Aquele BC também se calou diante da política de controle de preços adotada pelo governo petista, que resultou no IPCA de dois dígitos de 2015, com altíssimo custo imposto aos brasileiros, especialmente os de menor renda.

Pela primeira vez, em quase duas décadas, poderemos viver o ineditismo de receber a carta do BC porque a inflação caiu demais. Os alimentos têm respondido por boa parte deste movimento, já que estão em deflação há quase cinco meses seguidos. Mesmo a recuperação da atividade que ganha mais consistência não tem tido força suficiente para provocar remarcação dos preços – nem mesmo de serviços. Essa categoria, aliás, que foi grande fonte de pressão inflacionária na última década, tem contribuído para segurar o IPCA. Nem mesmo o aumento de impostos dos combustíveis teve força suficiente para segurar o índice mais perto de 4%.

A alta ociosidade no parque produtivo brasileiro explica muito também a baixa pressão pela alta de preços. Estamos longe de ter um problema de oferta – não tão longe que evite uma preocupação com o nível de investimento suficiente para evitar que isso se torne um problema no médio prazo. O estudo sobre o comportamento da inflação no Brasil deve ganhar um novo capítulo depois da experiência atual. Há uma dinâmica nova na economia que ainda não foi totalmente compreendida e, por isso mesmo, mais difícil de ser prevista, ou esperada.

A composição da atividade econômica deverá sofrer mudanças com novo perfil do mercado de trabalho que já se mostra com aumento do “por conta própria” e da informalidade, e mais a reforma trabalhista que deve gerar mudanças relevantes no emprego. A taxa de juros, que vai responder ao baixíssimo risco inflacionário – também uma situação inédita na economia –, vai provocar reações na tomada de decisão sobre consumo e investimento, para um lado ainda não mapeado.

O cenário é benigno e inusitado. Pode gerar frutos saudáveis para a construção de uma economia menos distorcida. Mas a ressalva é obrigatória e tão relevante quanto toda a discussão acima: sem a reforma da Previdência e revisões na gestão do orçamento público, essas transformações terão final conhecido e melancólico. Se a classe política achar que esse quadro positivo os isenta de responsabilidade na aprovação das reformas, o país perderá uma oportunidade valiosa de avançar com segurança e estabilidade.

Fonte: http://g1.globo.com