Alto índice de roubo de cargas motiva campanha

O aumento do número de casos de roubo de carga no Rio — entre 2011 e 2015, o estado registrou um crescimento de 134,8% nesse índice, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) — está inspirando um novo tipo de promoção. A proposta da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), em parceria com entidades como Fecomércio, Sindicato dos Lojistas (Sindlojas), Clube dos Diretores Lojistas (CDL) e a Associação de Supermercados do Estado (Asserj), é escolher uma data para oferecer aos consumidores um desconto correspondente ao custo adicional que as mercadorias têm por causa do crime. Esta é apenas uma das ações previstas na campanha #Não Compre Violência, que acaba de ser lançada pela Alerj e pelo Disque-Denúncia, como reação ao impacto que o roubo de cargas vem provocando na economia do estado.
Sim, porque se o barato pode sair caro, no Rio está saindo caríssimo a cada inocente pacotinho de biscoito comprado por poucos reais nas mãos de ambulantes-receptadores. Somente em 2016, ocorreram cerca de 9.862 roubos — terceiro recorde consecutivo desse tipo de crime em 25 anos —, o que acarreta incontável perda no valor de impostos não recolhidos e investimentos não recebidos pelo estado. A conta também recai no bolso do carioca que acha que fez um grande negócio levando para casa os tais biscoitos: os preços de alimentos e produtos em geral aumentaram 20%, para compensar a elevação do seguro e os gastos com adaptações na logística das entregas, incluindo a contratação de serviços de segurança cada vez mais complexos, com rastreadores, blindagem e escoltas armadas. Além disso, desde maio, o Rio é o único estado do país em que transportadoras cobram Taxa de Emergência Excepcional, uma espécie de pedágio da insegurança. O frete para o estado é acrescido de R$ 10 por fração de cem quilos, e empresas exigem um percentual de 0,3% a 1% sobre o valor da carga.
— É preciso conscientizar o cidadão de que por trás da compra daquele produto bem mais barato do que no comércio está um caso de violência. E que, ao comprar um produto assim, ele não só contribui para o aumento da violência, já que esse recurso financia o crime, como se torna cúmplice dos bandidos, por receptação de mercadoria roubada. Sem contar que ajuda a piorar a crise econômica, pois o produto roubado não recolhe ICMS, provoca desabastecimento e inflação — diz o deputado André Ceciliano (PT), presidente em exercício da Alerj, lembrando que a situação é tão grave que há motoristas de caminhão de outros estados se negando a vir para o Rio.
A campanha — cujo slogan é “Mercadoria roubada: quem compra faz vítimas’’ — será aberta à participação das entidades que compõem o Fórum Estratégico de Desenvolvimento do Estado da Alerj, como Firjan, Fecomércio, Associação Comercial e Fetranscargas, além de agentes públicos e privados interessados. CIGARRO ENTRE OS MAIS VISADOS Segundo estudo da Firjan, o número de ocorrências de roubo de carga registradas em todo o Brasil em 2015 chegou a 19,2 mil, gerando um custo de R$ 1,21 bilhão. Frente a 2011, as ocorrências subiram 47,9%. Em 2015, a Região Sudeste concentrou 85,8% dos casos (16.508), com um custo superior a R$ 1 bilhão. Só o Rio registrou, em 2015, 7.225 casos (37,5% do total nacional) com um custo de R$ 453,5 milhões. Em 2016, quando o Rio concentrou 43,7% dos registros, este prejuízo chegou a R$ 619 milhões. Desse total, R$ 51 milhões ficaram na conta da Souza Cruz. Segundo a empresa, na última década o roubo de cargas de cigarro subiu 80%. A empresa defende que esse tipo de crime se torne um indicador estratégico de segurança, como já acontece com roubo de veículos, a transeuntes e crimes de letalidade violenta. Do contrário, alega, não terá a atenção necessária dos órgãos de segurança.
Em 2016, o Disque-Denúncia recebeu 393 ligações sobre roubo de cargas. Este ano, só até 4 de setembro, foram 1.313. A maior incidência se concentra nos bairros de Anchieta, Bangu, Guadalupe, Pavuna e Costa Barros. As cargas mais visadas são gêneros alimentícios, cigarros, bebidas, botijões de gás e eletrodomésticos.
A Alerj informa que já aprovou nove leis que têm como objetivo diminuir os números de roubos de cargas, entre elas a que proíbe a fabricação e venda de equipamentos que bloqueiam rastreadores de GPS dos caminhões, a que proíbe o poder público de contratar ou dar benefícios fiscais a empresas que tenham relação com cargas roubadas e a que cancela a inscrição no ICMS de empresas que tiverem envolvimento com cargas roubadas.

Fonte: O Globo